É difícil entender, mas essa reflexão parece se impor a nós. Uma vez, lendo os meus textos, uma amiga disse que eles deveriam se filiar melhor ao espírito brasileiro, e trabalhar com cores, movimentos e aromas. Na hora, encerrei a discussão; nunca houve nenhum esforço da minha parte em ser localista, apesar da minha insistência em só escrever em português. Retruquei que a melhor parte de nossa literatura não era colorida, mas existia em tons escuros. Dei a discussão por encerrada, para não ter que repisar sempre os mesmos argumentos.
Mas, ao escutar Wisnik comentar seu livro, Veneno remédio, lembrei-me de uma observação que ele tinha feito (que parece que ele tomou de Gilberto Freyre) sobre o Brasil: o país (e essa ideia está, no contexto do seu ensaio, ligada ao futebol) inventou uma nova maneira de ser, encantadora, atraente, mas pagou um amargo preço por ela - ao mesmo tempo veneno e remédio, o Brasil é vítima do seu jeito de ser, e é daí que nascem todos os seus malefícios. A originalidade de Wisnik está em encontrar no futebol uma promessa - insuficiente, é verdade - de superação da pátria. De fato, a síndrome do fuebol nacional é de se perder em firulas e em jogos que, embora belos, têm como destino sofrer uma amarga derrota frente a adversários mais objetivos. Grande ponto de nossa formação simbólica, a seleção de 70 conseguiu aliar objetividade e criatividade, firula a serviço do jogo, organização tática e preparo físico que não apenas contrabalanceavam o espírito brasileiro, mas, por alguma magia estranha, eram, também eles, ludicidade e jogo. Vimos o mundo objetivo se transformar em playground. É provável que esse tenha sido um momento único de sonho.
Levando esse raciocínio para Machado de Assis, por exemplo, percebemos que seus textos não são, como nossa crítica por tanto tempo acreditou (e não há nenhuma novidade nisso), alheios à tradição literária, mas representam nosso espírito, por assim dizer, em negativo, o lado negro de nossa utopia. A malandragem, a ironia, a repulsão à labuta configuradas na elite, de fato, só pode ser negativa.
Como será, então, que a nacionalidade se reflete na experiência pós-moderna? Será que isso está presente nos meus textos?