domingo, 4 de outubro de 2009

Salve Geral

Escrevo com a impressão ainda quente desse filme. Muitas vezes, acredito que somos como condenados à morte, atados pelos pés e pelas mãos a uma pedra que rola pela montanha sem que tenhamos nenhum controle onde vamos parar - só sabemos que chegaremos ao pé da montanha, e já não teremos olhos para vê-la.
Que escolha tiveram os marginais, os assassinos, que escolha tiveram as pessoas que tombaram no mundo? Não, não é uma questão de escolha - somos arrastados para essa vida e o melhor que podemos fazer, o pouco que podemos fazer, é tentar guardar um pouco de humano ao ser engolido pela bola de neve.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Poucos conhecem meu segredo: sou uma pessoa atenta. O interesse de ouvir o que os outros dizem sobre mim está na distância absoluta, no choque entre a maneira como eu me sinto e a maneira como os outros me sentem. Cada vez que eu perco um documento, que não escuto o que me dizem, é como se eu tivesse minha jugular exposta para os predadores do sensato. Na sua sensatez, eles dificilmente compreendem que escuto, sem muitas defesas, pela centésima vez suas receitas para uma vida na qual os objetos estão onde os coloquei. Isso porque a sensatez é cega: envolvidos em uma sensibilidade morna, não são capazes de ver mais do que um erro de fácil correção, uma curvatura em matéria macia que um movimento bastaria para criar a retidão. E não há perplexidade, isentam-se do pasmo e não pensam mais do que um segundo sobre as frases que despejam sobre mim, como médicos despejam receitas para uma dor de cabeça. Os guardas do sensato não prestam atenção, na verdade - nunca prestaram atenção no esforço prolongado e continuamente frustrado que empreendi para não ter mais que ouvir suas reprimendas se esbaldando em fragilidades. Escuto o sem-cessar dos olhares e sorrisos que me dizem, todos os dias: "esse Paulo não tem jeito, mesmo..."
O problema é que o essencial e o importante são coisas diferentes - é importante saber em que mala está o passaporte, ou que a chave está no bolso da calça. Nada mais simples do que se lembrar da dose certa do remédio, e contudo, difícil, impossivelmente difícil. Mas não é isso o essencial - o essencial é o mundo como ele se apresenta. A sensatez olha a hora, e nunca o tempo, a chave, e não o que ela abre. Vê as palavras e não as frases, ouve as frases mas não a voz. A sensatez é capaz de ver um rosto belo, mas não é capaz de ver o belo no rosto. Olha o semáforo sem ver sua cor, o carro sem ver a poeira, vê o brinquedo mas não a criança.
Mas tudo é tristeza: a importância se impõe, pois é dela o domínio dos que dizem. O essencial se escuta, mas não se diz, se completa e está inteiro só no silêncio. Fale sobre um sorriso, e ele morre, diga o rosto, e ele derrete. Fale sobre as chaves e os passportes, e eles crescerão na sua realidade de chave e de passaporte.

sábado, 2 de maio de 2009

Existe uma contradição entre a subjetividade palpitante nos textos e a tentativa de demonstrar o seu desinteresse. É preciso demonstrar que o sujeito ocupa um lugar limitado no mundo, mas como fazer aparecer, em literatura, esse eu ao mesmo tempo ilimitado e impotente? Não há ilusão possível: os meus grandes poetas conseguiram criar grandes subjetividades - Drummond, Bandeira, Pessoa, todos eles faziam textos de um eu-lírico sempre potente na sua maneira de entender o mundo, sempre forte ao nomear as coisas. Até o sentimento de deslocamento deles nascia do sujeito que sequestra o discurso e o usa como arma para definir o mundo.
É claro, eu poderia retornar aos poetas que efetuaram a eliminação do sujeito. Mas isso também não seria a medida certa. Isso porque é preciso lidar com a melancolia que há na separação entre sujeito e mundo, mostrando essa experiência (que pode ser libertária) a partir do desencontro, a partir do terceiro, de uma perspectiva que, ao mesmo tempo, consegue entender a importância que cada um tem para si, mas que consegue consumar a desimportância de todos para com todos. Ocorre-me agora o teatro. Mas essa experiência não seria mais radical se efetuada na poesia?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

É difícil entender, mas essa reflexão parece se impor a nós. Uma vez, lendo os meus textos, uma amiga disse que eles deveriam se filiar melhor ao espírito brasileiro, e trabalhar com cores, movimentos e aromas. Na hora, encerrei a discussão; nunca houve nenhum esforço da minha parte em ser localista, apesar da minha insistência em só escrever em português. Retruquei que a melhor parte de nossa literatura não era colorida, mas existia em tons escuros. Dei a discussão por encerrada, para não ter que repisar sempre os mesmos argumentos.
Mas, ao escutar Wisnik comentar seu livro, Veneno remédio, lembrei-me de uma observação que ele tinha feito (que parece que ele tomou de Gilberto Freyre) sobre o Brasil: o país (e essa ideia está, no contexto do seu ensaio, ligada ao futebol) inventou uma nova maneira de ser, encantadora, atraente, mas pagou um amargo preço por ela - ao mesmo tempo veneno e remédio, o Brasil é vítima do seu jeito de ser, e é daí que nascem todos os seus malefícios. A originalidade de Wisnik está em encontrar no futebol uma promessa - insuficiente, é verdade - de superação da pátria. De fato, a síndrome do fuebol nacional é de se perder em firulas e em jogos que, embora belos, têm como destino sofrer uma amarga derrota frente a adversários mais objetivos. Grande ponto de nossa formação simbólica, a seleção de 70 conseguiu aliar objetividade e criatividade, firula a serviço do jogo, organização tática e preparo físico que não apenas contrabalanceavam o espírito brasileiro, mas, por alguma magia estranha, eram, também eles, ludicidade e jogo. Vimos o mundo objetivo se transformar em playground. É provável que esse tenha sido um momento único de sonho.
Levando esse raciocínio para Machado de Assis, por exemplo, percebemos que seus textos não são, como nossa crítica por tanto tempo acreditou (e não há nenhuma novidade nisso), alheios à tradição literária, mas representam nosso espírito, por assim dizer, em negativo, o lado negro de nossa utopia. A malandragem, a ironia, a repulsão à labuta configuradas na elite, de fato, só pode ser negativa.
Como será, então, que a nacionalidade se reflete na experiência pós-moderna? Será que isso está presente nos meus textos?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Uma confissão noturna

As noites nas quais se passa insone tornam-se suportáveis por causa da escritura. Peço, então, ao leitor que me acompanhe nesse momento de mesquinha melancolia, e que escute a história de um fracasso.

Há alguns anos atrás, armei-me como defensor de um poeta que eu julgava não receber seu merecido lugar na história literária. Buscava corrigir um erro do cânone. Curvado diante do peso da responsabilidade que há na retificação de 90 anos de incompreensão literária, falhei, e não produzi o texto que, na época, acreditava ser meu dever ter produzido. Confiante no meu talento, na minha capacidade de redação de um texto sedutor e convincente, faltou-me a vontade de trabalhar. Vontade que também me faltava para fazer qualquer coisa que julgasse importante: não era capaz de ler os livros que devia, não era capaz de escrever os poemas que quis conceber, era incapaz, tampouco, de ser o crítico literário que eu achava que podia ser. A terapia me ajudou nesse ponto, mas não resolveu o problema.

O erro de procurar a solução no divã vinha do fato de que a psicologia, assim como qualquer área do saber humano, conhecia limitações que nem o paciente ingênuo que eu era, nem os terapeutas que eu tive, souberam reconhecer. O diagnóstico freudiano não se aplicava aqui, e nem todos os remédios do mundo poderiam me redimir.

É triste pensar que tantas pessoas morreram sem encontrar uma resposta simplesmente porque não foram capazes de olhar para outras paisagens. A cada doença, seu remédio: para uma doença de leitura, um leitor. Para uma dor de escritura, um escritor. Willemart, Proust.

Tentarei contirnuar esse texto, quando o sono já não estiver minando minhas forças.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Comprado o livro, agora era preciso guardá-lo na sua estante, para que esperasse sua vez. Mas os livros não se ordenam a partir da vontade que damos a eles: eles pulam, chamam a nossa atenção, nos seduzem.

Com o quinto volume da À la recherche du temps perdu na mão, não pude escapar do encanto fatal da contracapa. Monumento à beleza feminina, aquele trecho não deixava dúvidas: por um tempo, eu tinha me apartado, me exilado da minha verdadeira vontade. O desejo me comandou: parei o que estava fazendo, sentei na poltrona daquele shopping tumultuado e percorri aquelas páginas como se não pudesse ler nunca mais, como uma espécie de expiação por ter passado tanto tempo longe daquelas frases.

Todo leitor é infiel, mas certos momentos eternizam um amor que não dura mais do que o presente.