Existe uma contradição entre a subjetividade palpitante nos textos e a tentativa de demonstrar o seu desinteresse. É preciso demonstrar que o sujeito ocupa um lugar limitado no mundo, mas como fazer aparecer, em literatura, esse eu ao mesmo tempo ilimitado e impotente? Não há ilusão possível: os meus grandes poetas conseguiram criar grandes subjetividades - Drummond, Bandeira, Pessoa, todos eles faziam textos de um eu-lírico sempre potente na sua maneira de entender o mundo, sempre forte ao nomear as coisas. Até o sentimento de deslocamento deles nascia do sujeito que sequestra o discurso e o usa como arma para definir o mundo.
É claro, eu poderia retornar aos poetas que efetuaram a eliminação do sujeito. Mas isso também não seria a medida certa. Isso porque é preciso lidar com a melancolia que há na separação entre sujeito e mundo, mostrando essa experiência (que pode ser libertária) a partir do desencontro, a partir do terceiro, de uma perspectiva que, ao mesmo tempo, consegue entender a importância que cada um tem para si, mas que consegue consumar a desimportância de todos para com todos. Ocorre-me agora o teatro. Mas essa experiência não seria mais radical se efetuada na poesia?