sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Uma confissão noturna

As noites nas quais se passa insone tornam-se suportáveis por causa da escritura. Peço, então, ao leitor que me acompanhe nesse momento de mesquinha melancolia, e que escute a história de um fracasso.

Há alguns anos atrás, armei-me como defensor de um poeta que eu julgava não receber seu merecido lugar na história literária. Buscava corrigir um erro do cânone. Curvado diante do peso da responsabilidade que há na retificação de 90 anos de incompreensão literária, falhei, e não produzi o texto que, na época, acreditava ser meu dever ter produzido. Confiante no meu talento, na minha capacidade de redação de um texto sedutor e convincente, faltou-me a vontade de trabalhar. Vontade que também me faltava para fazer qualquer coisa que julgasse importante: não era capaz de ler os livros que devia, não era capaz de escrever os poemas que quis conceber, era incapaz, tampouco, de ser o crítico literário que eu achava que podia ser. A terapia me ajudou nesse ponto, mas não resolveu o problema.

O erro de procurar a solução no divã vinha do fato de que a psicologia, assim como qualquer área do saber humano, conhecia limitações que nem o paciente ingênuo que eu era, nem os terapeutas que eu tive, souberam reconhecer. O diagnóstico freudiano não se aplicava aqui, e nem todos os remédios do mundo poderiam me redimir.

É triste pensar que tantas pessoas morreram sem encontrar uma resposta simplesmente porque não foram capazes de olhar para outras paisagens. A cada doença, seu remédio: para uma doença de leitura, um leitor. Para uma dor de escritura, um escritor. Willemart, Proust.

Tentarei contirnuar esse texto, quando o sono já não estiver minando minhas forças.

Um comentário:

  1. Oi Polo !!!
    Que bom que o segundo texto chegou...
    Maravilhoso tb e mais revelador que o primeiro...
    Todos somos parecidos na incapacidade de se exprimir, ou de escrever em primeira instância.
    Mas você está se saindo muito bem agora.
    Está sendo muito bom conhecer o Polo escritor, ele é tão bom quanto a pessoa ...e te inspirar o sono... rs
    Beijos e continue !!!Estou virando fã ;-)
    Dani

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